ABL Juntos_Outubro 2018

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A cidade em trevas

Quando se usa esta expressão alguém pode pensar que se trata de um exagero. Afinal de contas, “trevas” é uma palavra pesada. Mas, pensemos bem, primeiro definindo adequadamente o que são trevas, depois aplicando seu significado às situações por que passam as nossas cidades, esclarecendo, entretanto, que o uso que fazemos da palavra é figurado. Nesse sentido o dicionário define trevas como “ignorância, cegueira, obscuridade, incapacidade, morte”. Os sábios gregos descreviam as trevas como um perigo objetivo e subjetivo, porque a escuridão é o mundo dos mortos.
 
Do ponto de vista bíblico, as trevas representam tudo aquilo que é maligno, que ameaça a vida, que é moralmente mau. Trevas são o lugar onde a luz de Deus não brilha. Já no passado distante dizia o profeta Isaías: “O povo andará de um lugar para outro, sem rumo, desanimado e com fome. Por causa da fome, ficarão com raiva e amaldiçoarão o seu rei e o seu Deus. Olharão para o céu e depois para a terra e verão somente sofrimento e escuridão, trevas e angústia; porém, não poderão escapar delas” (Is.8.21,22).


A imensa maioria da nossa população é de baixa (ou baixíssima) renda, não tem como comprar produtos de primeira necessidade em quantidade suficiente e não tem acesso a serviços públicos decentes como hospitais, escolas e justiça. Uma grande parte mora em favelas, sem segurança e sem saneamento básico. Pela perspectiva de ignorância, incapacidade, obscuridade e morte, esta situação se transforma num verdadeiro estado de opressão. A sensação dessa gente é que está mergulhada numa longa noite, de trevas sem fim.
Por outro lado, uma parcela menor dos habitantes da cidade é privilegiada com tudo que é negado aos outros: moradia e educação decente, plano de saúde, boa renda, etc. Mas o que é pior é que estes se constituem nos opressores daqueles que acima definimos como oprimidos. Grande parte da renda dos ricos é obtida pela exploração dos pobres. E isto é uma ameaça para a paz entre os habitantes da cidade. Isto também é treva.

A escravidão de milhares de habitantes da cidade aos vícios da bebida e das drogas, é evidência clara de cegueira, moral e espiritual. Não há outra explicação para o fato de tanta gente se submeter voluntariamente a uma degradação tão grande da própria existência. Conhecendo o depoimento de pessoas que viviam nessa situação, e afinal tiveram a percepção da mesma, concluímos que elas estavam verdadeiramente nas trevas.

Outra situação que vivemos em nossas cidades, que é evidência do domínio das trevas nos corações, é a criminalidade e a violência que aterrorizam a nossa população. É claro que os homens fazem suas escolhas e não se pode dizer que a marginalidade é apenas produto da miséria, mas não temos dúvida de se trata de uma operação do príncipe das trevas. O medo que se espalhou nos corações dos nossos concidadãos é obra satânica, porque a obra de Jesus é encher os corações de segurança e esperança.

Trevas são também as atitudes de indiferença e de rejeição para com as coisas de Deus. Milhões de pessoas não se interessam, absolutamente, nem por conhecer a Palavra de Deus nem por obedecer seus preceitos, mas se envolvem profundamente com todo tipo de atividade mundana que se faz na cidade. E outros milhões são adeptos de religiões e práticas espirituais que contrariam frontalmente a Bíblia. Como diz o apóstolo Paulo, “Eles não podem crer porque o Deus deste mundo conservou a mente deles na escuridão” (2Co.4.4).
Por último, há as falsas igrejas de Cristo, pregando um evangelho falso e enganando a população. Mas além disso, provocando também o descrédito do evangelho por causa da busca desenfreada de dinheiro, por um lado, e da falta de mudança no comportamento, por outro. É evangelho falso porque só quer o dinheiro das pessoas e porque não muda ninguém. Novamente a Bíblia diz: “Isso não é de admirar, pois até Satanás pode se disfarçar e ficar parecendo um anjo de luz.” (2Co.11.14). Vejam só: o príncipe da escuridão disfarçando-se de anjo de luz!
Por essa razão precisamos pregar o evangelho. E fazê-lo é pregar contra as injustiças e opressões que existem em nossas cidades. Fazê-lo é também agir para mitigar as dores do nosso povo de todas as maneiras possíveis. Pregar o evangelho é lutar contra todo tipo de vícios, aos quais não podemos ser simpáticos nem indiferentes. É lutar para arrancar das garras do crime todos aqueles em nosso redor que estão envolvidos com ele, mesmo os que estão nas prisões.

Precisamos erguer a grande tocha de luz que é Jesus, para que o nosso povo conheça aquele único que pode libertá-lo, regenerá-lo e dar um novo sentido à sua vida. Precisamos nós também refletir essa luz em nossa vida, por viver em santidade e mostrar convicção e procedimento incorruptível. Que o Senhor nos ajude a sermos corajosos, desinibidos, para falar a todos os habitantes das cidades que Jesus é luz. Quem foi iluminado pela luz, quem conhece a luz e anda na luz tem a obrigação de compartilhá-la com os outros. Esse é o nosso dever para com os nossos conterrâneos das nossas cidades.

Jesus disse que quem o segue jamais anda em trevas. E disse também que ele é o caminho para Deus. Portanto, Jesus é um caminho sem trevas, um caminho de luz. O povo das nossas cidades anda como aquelas pessoas descritas pelo apóstolo Paulo em Atos 17.27, na cidade de Atenas: tateando na escuridão, na sua busca de um deus qualquer, desconhecido. Precisamos, como fez Paulo na ocasião, anunciar-lhes o Deus verdadeiro, para que possam também andar na luz. É nosso dever fazê-lo, por amor às nossas cidades, por amor aos nossos concidadãos e por amor a Deus, que enviou seu Filho para salvá-los.
Jesus disse que nós somos a luz do mundo. De fato, os que recebem a luz de Cristo tornam-se portadores dela, refletem-na em suas vidas. As lâmpadas sempre são instaladas no alto dos postes ou no teto das casas, para que possam irradiar ao máximo a sua luminosidade. Assim também é nosso dever mostrar a luz de Jesus Cristo em nossas vidas para que os nossos concidadãos possam perceber como o Senhor transformou nossas vidas, como ele nos libertou, nos restaurou e como ele nos dá poder para derrotar o pecado. Precisamos mostrar-lhes como é possível viver na luz e refleti-la.

Jesus também afirmou que é preciso trabalhar rápido, enquanto é dia, porque a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. Quando Jesus disse isto não havia trabalho noturno, porque não havia energia elétrica, mas o que ele quis mesmo dizer é que chegará o tempo em que cessarão as oportunidades de pregar o evangelho. Nessa ocasião seremos todos chamados a dar contas de nossas vidas ao Senhor dos senhores. E perguntamos: Qual será a nossa desculpa por não cumprirmos no tempo presente o nosso dever de difundir a luz de Jesus aos nossos conterrâneos?

Quando falta a luz em nossa casa procuramos logo acender uma vela ou um lampião, porque a falta de luz nos incomoda e nos deixa inseguros. Além disso, podemos sofrer um acidente por andarmos na escuridão. Por que, então, não nos sentimos tão incomodados com as trevas espirituais e morais que nos cercam diariamente por todos os lados? Vamos acender a luz de Jesus para todo o povo de nossas cidades!

Pr. Sylvio Macri
Pastor da IB Central de Oswaldo Cruz-RJ